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Projeto de extensão da Graduação do Einstein fortalece acesso à saúde em quilombos

Expedições realizadas por profissionais e alunos da Graduação do Einstein levam cuidado a comunidades quilombolas do Vale do Ribeira

O que começou como uma ação pontual com poucos estudantes tornou-se, em pouco tempo, um projeto de extensão estruturado, multidisciplinar e com impacto direto em diversas comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, região que, segundo o IBGE, concentra 80% dos quilombos do Estado de São Paulo.

Coordenado pela Professora da Graduação em Medicina do Einstein e Médica de Família, Dra. Simone Almeida da Silva, o projeto envolve, atualmente, alunos de vários cursos da Graduação, egressos, Docentes e profissionais voluntários de diversas áreas da saúde.

Todos eles se unem pelo mesmo propósito: levar acesso, dignidade e cuidado integral a populações historicamente em situação de vulnerabilidade.

A iniciativa nasceu dentro da disciplina de Atenção Primária à Saúde, uma das mais longas e formativas da Graduação em Medicina, presente do primeiro ao 12º semestre.

A familiaridade dos alunos com o cuidado territorial, somada ao desejo de atuação social, fez crescer a vontade de transformar a ida aos quilombos em algo maior e frequente.

“Os alunos me procuraram dizendo que queriam transformar as visitas em um projeto de extensão de fato. Achei a ideia muito boa, mas com uma condição: que fosse um projeto construído com as comunidades e para elas”, conta a Dra. Simone.

Como tudo começou

Alunos de um colégio de São Paulo que já visitavam o Quilombo de Ivaporunduva, em uma disciplina cultural, passaram a cursar Medicina no Einstein e trouxeram o desejo de dar continuidade às ações.

A partir da interlocução entre Docentes e alunos, e com apoio da ONG Travessia, parceira essencial na logística, a ideia começou a ganhar corpo.

Desde então, o que era uma iniciativa pequena cresceu em estrutura, propósito e alcance. Primeiramente, foram realizadas, em abril de 2024, expedições com atendimento em dois quilombos, com Medicina e Odontologia.

Posteriormente, começou o envolvimento de pessoas dos cursos de Enfermagem, Nutrição e Fisioterapia. Hoje, a ação conquistou até mesmo um grupo voluntário de veterinários para ações em zoonoses.

A expedição mais recente reuniu, em novembro, quase 70 pessoas, entre alunos e profissionais já formados, atuando nos quilombos de Ivaporunduva, São Pedro e André Lopes. Atualmente, o projeto se estende a cinco quilombos.

Cuidado integral em territórios de alta vulnerabilidade

Os atendimentos realizados pelo projeto buscam ampliar o acesso e qualificar o cuidado, respeitando as necessidades culturais, sociais e epidemiológicas de cada território.

As equipes realizam desde consultas médicas e odontológicas até grupos educativos, identificação de vulnerabilidades, escuta qualificada, triagem, testes rápidos, orientações e procedimentos de baixa complexidade. Há também atenção especial às doenças de pele, muito prevalentes na região.

“Queremos atuar nos três pilares do projeto: levar saúde, qualificar a articulação com os órgãos responsáveis e construir conhecimento”, explica a Dra. Simone.

“Estamos, inclusive, iniciando um estudo epidemiológico local, essencial para entendimento das necessidades e para defender políticas de cuidado mais estruturadas”, ressalta.

Articulação com o poder público e defesa de direitos

Ao longo do tempo, a Dra. Simone articulou todo um trabalho junto a órgãos como Prefeitura e Secretaria Municipal de Saúde, Instituto Florestal, Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Logística e Coordenadorias do Ministério da Saúde dedicadas à saúde da população negra e quilombola.

O objetivo é contribuir para que a comunidade tenha acesso a direitos já previstos em políticas nacionais.

Formação humana e técnica: impacto também nos alunos

A participação dos estudantes ocorre por meio de processo seletivo rigoroso, com entrevistas e capacitações obrigatórias em temas como racismo, especificidades culturais e direitos da população quilombola.

A intenção é assegurar preparo emocional, técnico e ético para o trabalho no território. O impacto no aprendizado é profundo.

“Os alunos chegam para mim e dizem que, depois de terem atuado no quilombo, sua visão sobre a Medicina mudou totalmente”, relata Simone.

Uma experiência transformadora

A aluna do sexto semestre da Graduação em Medicina, Vitória Betânia Silva Manfrim, conta que a experiência em quilombos mudou seu olhar. “Foi engrandecedor profissional e humanamente. Saí transformada”, define.

“Vivenciamos a Atenção Primária de forma intensa: atendimentos, discussão de casos, trabalho multiprofissional e visitas domiciliares”, destaca a aluna.

De acordo com a estudante, nesse processo, a escuta aos pacientes foi essencial. “Foi fundamental para compreender as doenças e a vida das pessoas. Muitas vezes, a conduta só se esclarecia após entender sentimentos, cotidiano e o uso de ervas medicinais”, observa.

Um projeto que cresce junto com as comunidades

Hoje, o município de Eldorado possui 13 quilombos e o projeto já está presente em cinco deles, com expansão planejada. A cada expedição, mais áreas da saúde, profissionais e alunos se integram.

A equipe já planeja, para novas ações, a expansão multiprofissional e o fortalecimento da pesquisa epidemiológica.

“Não tem preço ver os alunos com os olhos brilhando e a comunidade recebendo um atendimento digno”, define a Dra. Simone.

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