Ciência e VidaÚltimas novidades

Como a ciência pode transformar vidas e carreiras?

Larissa Zanetti percebeu ainda cursando o Ensino Médio que os estudos a levariam para descobertas enriquecedoras

A Biomédica Larissa Cardoso Zanetti tem uma história inspiradora. Em tempos em que a ciência é bastante discutida pelo mundo, ela comprova que buscar o conhecimento pode ser a chave para abrir portas que levam à realização de sonhos e objetivos.

Nascida em São Paulo, ela foi com a família, aos 14 anos, morar em Rio Verde, interior de Goiás. No começo, ficou chocada com a nova realidade, principalmente quando se deparou com crianças que acordavam cedo para chegar à escola no período da tarde. “Elas moravam em fazendas e para ter algum acesso à educação tinham de enfrentar um longo trajeto”.

Era essa a realidade de seus colegas da primeira escola onde estudou em Rio Verde até o primeiro ano do Ensino Médio. Porém, preocupada em melhorar a qualidade de seus estudos a partir do ano seguinte, ela passou a estudar em um colégio de melhor qualidade no mesmo município. “Percebi ali que tinha de me dedicar bastante para alcançar os meus objetivos e sonhos”.

Larissa estava certa, pois logo depois sem fazer cursinho ingressou na Graduação de Biomedicina pela Universidade Federal de Goiás (UFG), fato que a fez mudar-se para a capital Goiânia. Essa foi a primeira vez que saiu de casa, deixando os pais Noilda e Edgar, além do único irmão Edgar Filho.

Um novo mundo abriu-se, mas ela sonhava com mais desafios. Na Universidade, Larissa, já aos 20 anos, fez a inscrição e uma prova de inglês com o intuito de ingressar no Programa Ciências sem Fronteiras para estudar e trabalhar em Michigan, nos Estados Unidos (EUA). Aprovada, não pensou duas vezes para arrumar as malas e voar para terras estrangeiras. Inicialmente ela nem acreditava que daria certo. “Foi um sonho realizado”.

Ao chegar em Michigan, apesar de ter estudado inglês em uma escola particular durante o Ensino Fundamental até completar o segundo ano do Ensino Médio descobriu que, como muitos estrangeiros que não têm vivência em uma língua não nativa, entendia o idioma razoavelmente e não falava “absolutamente nada”.

Essa situação criou inicialmente uma barreira, mas foi uma excelente oportunidade para vencer os obstáculos e arriscar as conversações com as pessoas que encontrava por lá, além de alunos e professores. “Eu conheci gente do mundo inteiro, que me apresentou diferentes culturas e, assim, aprendi o inglês de verdade”.

Essa experiência durou um ano e meio, tempo suficiente para fazer parte de sua Graduação e projetar seu crescimento tanto no âmbito pessoal como profissional. Desse período, Larissa destaca os estudos sobre a língua inglesa, microbiologia química e o trabalho como tradutora voluntária. “Em um dado momento, chegaram alunos da África que não falavam bem o inglês, então, fui chamada por uma professora para fazer parte de um grupo que intermediaria a conversação e escrita deles para ela”.

Em Michigan, ela também atuou em um laboratório de técnica em genética forense, onde fez parte dos experimentos de um estudo em nível de Mestrado de um aluno, que também estava fazendo intercâmbio. Larissa aproveitou a sua pesquisa que foi parte dessa investigação como objeto de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), em sua formação como Biomédica concluída no Brasil.

A sua atividade no laboratório consistia na coleta de DNA de ossos bovinos expostos a diferentes condições ambientais (enterrados há meses, congelados em freezer, sujeitos ao vento, chuva etc.) e na investigação sobre a qualidade e quantidade desse material.

Dessa forma, o DNA era avaliado, bem como a possibilidade de os ossos fornecerem informações genéticas que pudessem colaborar com possíveis futuras pesquisas ligadas à solução de crimes e ou atos civis. “A minha parte dos estudos constatou que não houve diferença estatística importante na qualidade e quantidade de material coletado, sendo que para cada tipo de exposição do material as condições foram semelhantes”.

Voltando para o Brasil, Larissa finalizou a Graduação e começou a colocar em prática o plano de ingressar no Mestrado Acadêmico da UFG. Mas ao navegar pelo perfil de um professor dessa Universidade, notou um post de um pesquisador do Einstein. Ele divulgava vagas para essa formação. “Isso aconteceu em 2016. Rapidamente enviei um e-mail para ele, que pediu a minha documentação completa com históricos escolares, carta de interesse, projeto de pesquisa e referências”.

Ela enviou todas as solicitações ao Einstein. Depois das análises, novamente arrumou as malas e mudou-se para São Paulo, onde após três meses de experiência foi admitida como mestranda, pelo Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein (IIEP).

 De volta para terras estrangeiras

Dessa forma, iniciou o Mestrado com a orientação do professor e Dr. Ricardo Weinlich, no Programa de Pós-Graduação stricto sensu em Ciências da Saúde. Mais tarde, submeteu os projetos à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), quando após três meses conseguiu a aprovação.

Por meio do primeiro relatório no decorrer do Mestrado, a FAPESP considerou a sua pesquisa apta a passar para o nível de Doutorado Direto. “Foi surpreendente. Conversei com o Dr. Ricardo e resolvemos aceitar esse grande desafio”.

A proposta da FAPESP deu-se devido à grandiosidade e ineditismo do projeto que teve como característica principal contribuir com a pesquisa sobre necroptose. “Já estávamos tendo resultados e se eu continuasse no Mestrado não poderia trabalhar todos eles da forma como gostaríamos e no período de dois anos e meio”.

A necroptose é um tipo de morte celular que se assemelha em morfologia à necrose clássica. Porém, depende de uma via de sinalização mediada por quinases (uma enzima que transfere grupos fosfatos de moléculas doadoras de alta energia para moléculas-alvo específicas).

Esse estudo contribuiu para demonstrar que determinados compostos podem resultar na necroptose. Esse fato é considerado uma surpreendente descoberta, pois com isso pretende-se desvendar os mecanismos dessa indução, por meio de medicamentos, com o objetivo de eliminar células tumorais, por exemplo.

Especificamente o estudo da Larissa consistiu em avaliar como modular a expressão de um gene envolvido nessa via de morte. Com a mudança de nível para o Doutorado Direto, em 2018, ela interessou-se em aprender técnicas laboratoriais não utilizadas no Brasil. Por isso, no final de 2019, submeteu um novo projeto sugerindo um Doutorado no formato ‘sanduíche’ na Universidade de Harvard. A proposta foi aceita e em 2020 foi morar novamente nos EUA, onde permaneceu por um ano.

A vivência não foi fácil no começo, devido às exigências e o contato com novas técnicas, mas ela aceitou o desafio que hoje resultou em uma especialização rara no mercado brasileiro. “O ritmo de pesquisa nos EUA é muito intenso. Ao mesmo tempo em que aprendia manusear as novas ferramentas e equipamentos, tinha de aplicá-las nos processos já em andamento”.

No meio desse trabalho, surgiu a pandemia causada pelo novo coronavírus e ela foi convidada a desenvolver pesquisas envolvendo drogas existentes, que tivessem potencial para curar pacientes com a COVID-19, suspendendo a sua pesquisa temporariamente. Essa colaboração foi muito importante para a população do mundo todo, pois ajudou a concluir que ainda não havia nenhum medicamento eficaz para a cura da doença.

Nesse momento, conheceu Andres Florez, estudioso que estava editando o livro Ferroptosis:

Mechanism and Diseases, juntamente com outro colega pesquisador, o Dr. Hamed Alborzinia. Ambos trabalhavam com morte celular e convidaram Larissa e o Dr. Ricardo para escreverem um dos capítulos, que foi intitulado como Necroptosis, the Other Main Caspase-Independent Cell Death. “Ele acabou de ser publicado e foi uma experiência muito gratificante”, conta.

Após isso, retornou ao seu projeto e continuou dedicando-se mais efetivamente à técnica Crispr/cas9, muito comentada hoje em dia pela comunidade científica que pesquisa sobre genoma. “Com isso eu estudei a edição genômica em larga escala (high-throughput), aprendendo a mudar várias partes do DNA, ao invés de transformar apenas uma, como é realizado no Brasil”.

De volta ao solo brasileiro, Larissa defendeu sua tese, submeteu dois papers para duas revistas científicas de renome internacional e resolveu ingressar no mercado de trabalho industrial. “Recentemente, fui contratada por uma empresa multinacional como Especialista de Aplicações em Campo, responsável pela linha de biociências dando suporte aos pesquisadores que utilizam equipamentos e reagentes”.

A trajetória da cientista demonstra como a carreira acadêmica-científica contribui para a evolução dos nossos tempos, além de valorizar jovens estudantes dedicados à pesquisa como forma de também realizar sonhos e traçar objetivos profissionais.

Conheça o Mestrado e Doutorado Stricto Sensu em Ciências da Saúde do Einstein.

Notícias relacionadas