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Saúde Mental na Atenção Primária é oportunidade de carreira em várias profissões

​Profissionais preparados nessa área se tornaram estratégicos para hospitais, planos de saúde, sistema público e grandes empresas com programas assistenciais

Já há alguns anos, a atenção à saúde mental é uma tendência crescente nos diversos níveis assistenciais. O combate ao estigma e avaliações mais precisas sobre a prevalência e os prejuízos socioeconômicos provocados pelos transtornos mentais vêm evidenciando o tamanho do problema e ligando sinais amarelos em diversos setores da sociedade. Com a pandemia, que agravou exponencialmente o quadro da noite para o dia, um sinal vermelho criou o consenso de que é urgente passar do planejamento para a reação.

Hoje, redes de hospitais e laboratórios, planos de saúde, o sistema público e grandes empresas com estruturas assistenciais bem desenvolvidas buscam as melhores abordagens para o desafio. E todos concordam que a solução passa pela intervenção precoce na Atenção Primária em Saúde (APS). E que, mais do que nunca, são necessários profissionais capacitados e com uma visão ampliada de assistência para liderar o processo.

Nesse contexto, ocorreram impactos na capacitação profissional e no mercado de trabalho. A Pós-graduação em saúde mental na atenção primária, por exemplo, se transformou em um adendo importante no currículo de profissionais de saúde e de outras áreas, com um novo mercado que passou a valorizar mais as competências nesse campo da saúde.

A saúde mental no pós-pandemia

Um comunicado conjunto da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de Ministros europeus da Saúde, divulgado em julho, advertiu que a pandemia terá “impacto de longo prazo e de grande alcance” na saúde mental das populações, em um fenômeno já conhecido como a “quarta onda”.

“Da ansiedade com a transmissão do vírus, o impacto psicológico dos confinamentos e do autoisolamento, as consequências ligadas ao desemprego, as dificuldades financeiras, à exclusão social: (…) todo mundo se vê afetado de uma maneira, ou de outra”, detalhou o documento. E concluiu: “A saúde mental e o bem-estar devem ser percebidos como direitos humanos fundamentais”.

O estudo “The COVID19 Pandemic and the $16 Trillion Virus” informou que 40% dos adultos nos EUA já relatavam sintomas de depressão ou ansiedade em meados de 2020, contra 11% em 2019. “Essa diferença de 30%, causada diretamente pela pandemia, resultaria em aumento de 80 milhões de indivíduos com problemas mentais. Em termos simplificados – o texto considera como hipótese um gasto de US$ 20 mil por pessoa por ano – as perdas chegariam a US$ 1,6 trilhão”, calculou o Economista Francisco Galiza.

Journal of the American Medical Association (JAMA) Pediatrics publicou um estudo apontando que a prevalência de transtornos mentais no público infantojuvenil dobrou em relação ao período anterior à pandemia. “Os serviços precisam ser ampliados”, concluíram os autores. No Brasil, a Presidente da Associação Psiquiátrica de Brasília (APBr), Renata Figueiredo, completou que “outro problema que temos visto é o aumento do consumo de drogas”.

Combate ao estigma

O estigma ainda é um dos principais empecilhos à promoção da saúde mental no Brasil e existe até um termo – psicofobia – para descrever o preconceito contra portadores de transtornos mentais. Essa hostilidade, entre outros prejuízos, reprimiu pacientes e familiares por anos, atrapalhando a busca por atendimento adequado.

Aos poucos, esse obstáculo vem sendo superado com o aumento da discussão sobre o assunto e, nesse sentido, a explosão da prevalência durante a pandemia contribuiu para acender os holofotes. O tema da redação do Enem em 2021, por exemplo, foi “o estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira”. No mesmo barco, a administração pública e a iniciativa privada estão cada vez mais patrocinando campanhas de esclarecimento, com engajamento de instituições e personalidades capazes de mudar comportamentos.

Os resultados desse movimento são positivos, mas aumentam o desafio de multiplicar a capacidade assistencial, pois junto ao crescimento da prevalência é lógico esperar mais adesão aos tratamentos.

Estrutura assistencial

A assistência aos pacientes com transtornos mentais é complexa e cara, demanda serviços e equipamentos diferenciados e profissionais escassos. Existem, por exemplo, menos de 12 mil psiquiatras no Brasil, ou seja, nem 3% do total de médicos são especializados na área, com o agravante de que mais da metade está concentrada no Sudeste. Esse conjunto de dificuldades já era responsável por um déficit assistencial histórico. E então veio a pandemia.

De acordo com o Professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e Coordenador da Pesquisa COVIDPSIQ, o Psiquiatra Vitor Calegaro, é esperado para os próximos anos um colapso mundial na rede assistencial de saúde mental. “Em termos globais, já há indicadores de que poderão faltar psicólogos e psiquiatras em todo o mundo, incluindo em países desenvolvidos”, alertou.

Dentro desse cenário, a estratégia da Atenção Primária em Saúde é que as equipes multiprofissionais tenham instrumentos e competências para abordar também as questões de saúde mental, desde ações de promoção e prevenção até o diagnóstico e tratamento.

Atenção Primária em Saúde (APS)

A Atenção Primária em Saúde (APS) é peça-chave na solução. Fazer a intervenção precoce com qualidade é indispensável para criar um fluxo capaz de mitigar o provável colapso da rede assistencial. E, principalmente, de prevenir o agravamento dos casos que implica em mais sofrimento para os pacientes e familiares, mais custos ao sistema e outros inúmeros prejuízos sociais e econômicos.

Antes da pandemia, a estimativa era de que 20% da demanda na APS já estava relacionada com transtornos mentais. Com a “quarta onda” o volume será maior e o modelo terá que aperfeiçoar estratégias e incorporar profissionais preparados para realizar os procedimentos e aprimorar o relacionamento com o público. E assim cumprir o papel preventivo e organizador do sistema.

Profissionais

Incorporar pessoas capacitadas ao sistema é a base para estimular a promoção da saúde mental. E a demanda nesse sentido é grande e variada.

Na assistência, é preciso que diversos profissionais de saúde – além de psiquiatras e psicólogos – sejam capazes de abordar com conhecimento as questões relacionadas aos sofrimentos e transtornos mentais. Clínicos gerais e médicos de outras especialidades, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas etc. vão se destacar com a habilidade de fazer a intervenção precoce e atuar no diagnóstico e tratamento dos pacientes, por exemplo.

“Temos que criar opções para aumentar o acesso aos especialistas, e precisamos também de mais médicos para atender a essa demanda de atendimentos e evitar que as pessoas fiquem esperando na fila. Indivíduos com risco de suicídio ou que querem largar um vício em drogas não deveriam ficar esperando”, resume a Presidente da Associação Psiquiátrica de Brasília (APBr), Renata Figueiredo.

Administradores, engenheiros, advogados, entre outros, também serão bem-vindos para qualificar o planejamento e a gestão de políticas e de programas. Poderão, por exemplo, desenvolver processos e estruturas, aperfeiçoar o atendimento ao cliente e cuidar da saúde financeira dos projetos.

E tem mais. Jornalistas, relações públicas, publicitários e artistas gráficos serão importantes para aprimorar a comunicação com o público, criando abordagens, aprimorando relacionamentos, esclarecendo e estimulando. E, claro, professores e especialistas em ensino têm que preparar todas essas pessoas.

Compreender a saúde mental e a abordagem na Atenção Primária em Saúde é, hoje, oportuno para uma infinidade de carreiras.

Mercado de trabalho

O  profissional pós-graduado em saúde mental vai encontrar muitas portas abertas. Na iniciativa privada, redes de hospitais e laboratórios, operadoras de planos de saúde e toda a cadeia de fornecedores, healthtechs e grandes empresas com programas internos de saúde bem desenvolvidos. E ainda haverá oportunidades na área de ensino e de comunicação, entre outras.

O sistema público vai precisar de profissionais capacitados no assunto para atuar em ministérios, secretarias e diversos outros órgãos responsáveis pelo planejamento e implantação de políticas de saúde, além de toda a rede assistencial do Sistema Único de Saúde.

Ensino

Profissionais com rotinas de trabalho puxadas têm a Pós-graduação a distância como alternativa para se preparar para atuar em saúde mental. Atualmente, é possível integrar flexibilidade de local e horários com os principais atributos de uma boa educação no formato presencial, oferecida pelas melhores instituições. E alunos de todas as regiões do país podem ter acesso a escolas, recursos, docentes e networking antes restritos aos moradores dos grandes centros.

A saúde mental é um dos principais desafios sociais e econômicos do século 21. O setor de saúde e vários outros estão se movimentando para enfrentar esse cenário e a ferramenta principal para o sucesso serão equipes bem-preparadas e lideradas. As oportunidades já foram lançadas.

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